Quando tinha 11 anos, meu pai me filmou competindo a prova de 100m costas. Após a saída, eu desaparecia e reaparecia como um submarino emergindo na linha dos 15m, com uma larga distância dos outros garotos. No vídeo, é possível escutar a minha irmã dando risada com o ar de: ‘pode isso Arnaldo?’

A súbita ‘abdução’ e ‘reaparição’ era consequência da minha ondulação submersa, técnica mais rápida e eficiente para se locomover dentro da água. Tão eficiente que, nos anos 80, foi criada uma regra que limita sua utilização até os 15m da piscina nas provas de Borboleta, Costas e Livre (tanto depois da saída, quanto depois da virada). O motivo era que seu uso em excesso descaracterizava o nado que precisava ser feito na superfície.

Já que as regras limitam o quanto podemos “ondular”, vamos aprender a fazer essa técnica da melhor forma possível, como se os 15 metros fossem aquelas flechas amarelas na pista do Mario Kart!

Passo 1: Faça o Streamline

A ondulação submersa é basicamente uma extensão do deslize após uma saída ou virada. A posição de streamline (ou posição “de flecha”), é muito importante não só para o aproveitamento de sua impulsão, mas também para a eficiência da ondulação submersa. Ela diminui o atrito do seu corpo com a água.

Nadadores aprendiam que o streamline perfeito era feito com os braços elevados, com as mãos uma em cima da outra e a cabeça apertada entre os bíceps. Mas como diz o técnico e ex-nadador olímpico Gary Hall Sr. (o mesmo que ensina como fazer uma excelente saída de costas), a melhor posição para deslizar depois da impulsão é com os bíceps atrás da cabeça, dando espaço para juntar os cotovelos ao máximo. Micheal Phelps, que é considerado um dos melhores “onduladores” da atualidade, faz a posição com maestria.

phelps_ondulacao

Michael Phelps fazendo a posição de streamline

No vídeo abaixo, Gary Hall Sr. mostra um exemplo errado e um correto da de como fazer o streamline:

Outro video tutorial sobre Streamline:

Você pode testar a eficiência da posição do seu streamline com o seguinte exercício: Impulsione a parede, faça a posição de flecha, mas não movimente as pernas. Tente ir o mais longe possível:

Passo 2: A Ondulação

Agora que você se acostumou com a posição de flecha, temos que aprender a cortar a água como uma. Diferente do que muitos pensam, uma flecha não voa completamente rígida. A ponta está fixa, cortando o ar, mas seu corpo oscila de um lado para o outro. Esse movimento é chamado de Paradoxo do Arqueiro.

Então, depois de colocar seu corpo na posição de streamline, mantenha a parte superior (peitoral até ponta dos dedos) fixa como a ponta da flecha e faça o restante do corpo se movimentar para cima e para baixo, mas com uma diferença: a oscilação do corpo é feita para ajudar no ‘chute’ da pernada. É importante entender que a ondulação não é apenas um trabalho de pernas, mas principalmente de tronco e abdômen. É para rebolar mesmo!

Veja a técnica no vídeo abaixo:

Passo 3: Ajuste o percurso do submerso

Como a água é mais densa no fundo da piscina, lá você terá mais eficiência no movimento da ondulação. Por outro lado, o percurso que você fará para ir até o fundo e subir, é maior do que se ficar só na superfície. Então é melhor ondular na superfície? Não! Quando se ondula na superfície, seu movimento cria bolhas, a água fica menos densa e perdemos eficiência. Tá fácil hein. O que fazer então?

Você precisa encontrar a profundidade correta, onde a curva da sua trajetória será mais “fechada”.  É no meio termo entre a superfície e o fundo da piscina que sua ondulação será mais eficiente. Note que o ideal é ondular com mais ênfase para frente do que para cima.


submerso_15m
Passo 4: Encontre a frequência de pernadas perfeita

O número de ondulações dependerá da eficiência da sua pernada. Uma boa dica é fazer a contagem de quantas são necessárias para chegar até os 15 metros. Lembrando que esta contagem pode mudar se você está fazendo a saída de cima, de costas, ou depois de uma virada. De qualquer forma, é importante avaliar se você consegue manter suas ondulações eficientes e fortes até os 15 metros. Caso contrário, é melhor começar seu nado antes que as pernadas percam força.

ondulação de costasOndulação ventral
Passo 5: Capriche no “Break through”

Esse é o termo para o momento que ondulação termina e o início do nado começa. Como já disse, não é bom fazer a ondulação na superfície por causa da formação de bolhas, mas obviamente seu corpo precisa estar acima da água para a braçada ser mais eficiente. Ao sentir que seu corpo está chegando na superfície, inicie a primeira braçada logo após a última ondulação. Cuidado para não iniciar o nado antes da hora, quando você ainda estiver muito fundo. A recuperação da braçada é um movimento contrário da direção que você está nadando, e esse contato com a água irá brecar toda velocidade adquirida na saída e no submerso. Nos nados costas e crawl, inicie a pernada alternada logo depois da primeira braçada para dar continuidade ao nado.

 

Considerações finais

Essa poderosa arma pode ajudá-lo mas também pode atrapalhar, e muito. É necessário entender e sentir os melhores momentos para se fazer ondulação submersa, pois exige muita técnica e fôlego. Insistir em um movimento sem eficiência pode acabar pesando no final de prova. Treine, treine e treine!

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