Para quem acompanhou de perto a trajetória da ex-nadadora Júlia Gerotto, de 23 anos, nas piscinas sabe que a raça e a vontade de vencer estão entre suas características principais. E não é somente por sua enxurrada de títulos*, que rechearam os seus 12 anos no esporte competitivo, mas também por sua própria história na natação.

Aqueles que acham que nadadores nasceram com o dom natural para o esporte muito se enganam: a própria Júlia é a prova disso. Dos 5 aos 9 anos, a ex-atleta praticava natação na academia Line-Up Sports, dentro do condomínio Portal do Morumbi, zona oeste de São Paulo, e ainda jogava futebol e capoeira. “Cheguei a desistir da natação algumas vezes”, afirmou.

Foi só em 2003, quando tinha 10 anos, que ela decidiu fazer testes em clubes para se federar na natação. “No entanto, no meu primeiro teste no Paineiras (Clube Paineiras do Morumby, zona oeste de São Paulo), eu não fui aceita. Disseram que eu era muito nova e precisava melhorar meu nado e técnica”, contou. E foi aí que a primeira demonstração de vencer no esporte se manifestou na carreira de Júlia. “Fiquei muito inconformada em não ter sido aceita e foi neste momento que decidi deixar os outros esportes em segundo plano e me dedicar mais à natação”, disse.

Júlia Gerotto era especialista nas provas de 200 borboleta e 400 medley

Depois de onze meses aprimorando a técnica de natação na mesma academia que a revelou no esporte, em novembro de 2003, a ex-nadadora conseguiu entrar para a equipe competitiva do Clube Paineiras do Morumby. A partir daí, destacou-se como uma atleta com habilidades incríveis. Foi convidada a fazer parte da equipe de clubes renomados como o Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, MG, e o Esporte Clube Corinthians. Inclusive, com os seus títulos no esporte conseguiu uma bolsa na Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, por onde também nadou.

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Ao Raia Oito, Júlia Gerotto deixou seu depoimento do que a natação trouxe/mudou em sua vida – e nem tudo é um mar de rosas:

“A natação ensinou-me a ser responsável. Desde os meus 12 anos aprendi a organizar e dividir meu tempo em estudos, lazer e esporte, sempre priorizando escola e treinos. Além da organização, aprendi a lidar responsavelmente com meu dinheiro e pensar a longo prazo.
A natação ensinou-me a cuidar de mim mesma em todos os aspectos. À medida que fui me dedicando cada vez mais ao esporte, prestei mais atenção à saúde, evitando situações que pudessem levar à doença, como não sair sem agasalho quando esfriava, por exemplo, ou deixando até mesmo de praticar outros esportes antes de competições; ia até dormir cedo para não ficar (tão) exausta com escola e treino.

“A natação ensinou-me que, de um modo justo, alcançar objetivos não é fácil. Almoçar no carro antes da dobra, passar mal nos treinos, chorar de dor, lutar contra os pensamentos divergentes, abrir mão das festas e baladas por causa de treinos, colocar um elíptico no meu quarto para que eu pudesse fazer meu extra todos os finais de semana, é algo motivador, entretanto que exige muita força de vontade e difícil, independente da idade.

“A natação ensinou-me a ser honesta comigo mesma. Sempre fui muito exigente comigo mesma- e com os outros, “a chata” que fazia exatamente o que o técnico mandava, controlando os intervalos e tiros.”

“A natação ensinou-me que a amizade é algo forte e existe sempre, independentemente de você ser a adversária do outro. Mesmo não tendo muito contato com algumas pessoas, nossas amizades e momentos em que passei com elas estão sempre comigo. A relação na piscina é o trabalho, e quando estamos fora dela, tudo muda, a relação é muito diferente. No entanto, isso não era verdade nos treinos! Nos treinos deixávamos de lado a competição e incentivávamos uns aos outros; quando algo doía, quando chorávamos, muitas vezes a gente se ajudava a ser melhor e superar a dor. O conseguir separar a relação profissional e de amizade não somente ocorreu entre atletas, como também entre atletas e técnicos. Acho que tive muita sorte em conseguir técnicos tão bons profissionalmente e tão amigos. Mesmo querendo gritar com eles (e às vezes deixando escapar uma coisa ou outra), sempre os considerei muito amigos.

“A natação ensinou-me a não estabelecer limites tão facilmente. Esse ensinamento pode ser visto tanto como bom, como muito ruim. Os treinos desafiadores, as séries de fundo, as dobras sozinhas com o técnico, as séries que tiveram que ser repetidas no final do treino e de novo no dia seguinte, sempre me desafiaram a testar meu corpo e ir muito além do meu limite, a um lugar muito extremo. O problema foi que os anos se passaram e não cuidei da parte que, para mim, é a principal e mais “esquecida” como atleta: o psicológico. Sempre meus técnicos e eu tivemos preocupações com lesões e musculação, entretanto não sabíamos que seria a parte psicológica que iria dar fim a minha carreira de nadadora. O meu corpo aguentava e estava forte, mas a cabeça mandava e o desligava , não conseguia me mexer. O não saber estabelecer limites para o corpo, foi um grande problema. Eu pedia mais treino, eu ia para dobras extras pois gostava de treinar, mas não tinha consciência de que minha insistência em treinar e o próprio treino tornassem minha condição cada vez pior em todos os sentidos. A dificuldade em estabelecer meus limites se estendeu para a faculdade/estudos, para as relações fora do ambiente da natação e isso é complicado, pois acredito que limitações devam existir, elas nos protegem.

“A natação propiciou-me oportunidades incríveis! Viajei para o exterior diversas vezes, conheci pessoas de culturas diferentes e fiz amizades, ganhei uma bolsa de estudos na Universidade de Kentucky nos Estados Unidos, conheci muitas pessoas incríveis aqui no Brasil, enfim, a natação, apesar de tudo, ajudou a moldar a pessoa que hoje sou e quero ser no futuro em minha profissão.”

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* Júlia Gerotto – 5º lugar nos 200 borboleta Jogos Olímpicos da Juventude (2010), campeã e recordista Sulamericana Juvenil nos 200 metros borboleta (2009), campeã nos 400 metros medley na Copa Latina (2010), terceiro lugar nos 400 medley e 200 medley no campeonato Sulamericano ODESUR (2014), 2° lugar nos 200 borboleta no Sulamericano Absoluto (2014).