Imagine se você estivesse a duas semanas da sua principal competição do ano e, de repente, simplesmente não conseguisse mais repetir os tempos que estava acostumado a fazer em todas as suas séries. Pois foi o que aconteceu comigo quando eu era juvenil 1.

Em 2008, aos 15 anos de idade, eu estava me preparando para o Campeonato Brasileiro Juvenil de Verão. A competição aconteceria em Vitória e eu nadaria os 800 livre, os 400 medley e os 200 borboleta. Nos meus treinos, acabava fazendo mais séries de fundo, pensando na prova mais longa que eu nadaria.

Eu sempre fui o tipo de atleta que fazia tudo o mais certinho possível e se preocupava com cada passo que dava. E, como boa fundista, eu sabia muito bem os tempos que precisava manter nas séries de ritmo pra fazer o tempo que eu esperava nos 800. E eu estava fazendo próximo disso. Faltando duas semanas para a competição, eu parei de sair do lugar. Para vocês terem uma ideia – vou falar em tempos aproximados, porque já faz muito tempo e não lembro exatamente -, eu mantinha algo em torno de 2’30” em séries de 200 metros em A2 e, do dia para a noite, passei a fazer algo em torno de 2’55”.

Até hoje não sei explicar o que aconteceu. Talvez eu tenha me deixado abalar pela pressão. Seria o meu sexto campeonato brasileiro da vida e eu nunca tinha ganho uma prova. Só quem convivia comigo na época sabe o quanto eu queria a medalha de ouro. E, então, meu estilo desencaixou dessa forma. Meu mundo caiu. Eu entrei em desespero. O que estava acontecendo pra que meu corpo simplesmente parasse de responder da forma como estava mais do que acostumado a fazer?

Meu técnico da época, o Wlad, conversou comigo. É claro que ele conhecia bem a atleta que tinha e sabia que eu perderia o controle da minha mente. “Filha, calma. A competição ainda não chegou”, ele me dizia. Hoje, também não sei dizer se ele já imaginava o que aconteceria ou se só não queria que eu entrasse em desespero. Só sei que não foi fácil, mas, junto com ele, fiz alguns treinos um pouco diferentes e, enfim, chegou o tão esperado brasileiro.

Já adianto que, durante os aquecimentos, não me senti muito melhor nadando, mas tentei não pensar nisso, só em dar o meu melhor nas provas que eu ia nadar. Primeira prova, 800 livre. Eram 800 metros no estilo que parecia que eu tinha desaprendido a nadar. Não, eu não ganhei. Segundo lugar de novo, mas com uma melhora de três segundos na minha melhor marca pessoal da época. E aquilo, pra mim, foi o que me deu confiança de que nem tudo estava perdido.

Na segunda prova, os 400 medley, mantive meu tempo e consegui um terceiro lugar. Não estava satisfeita com aquilo, mas eu ainda tinha uma prova pela frente. E talvez a mais temida pelos nadadores, os 200 borboleta.

Na eliminatória, eu tinha plena consciência de que eu não estava na minha melhor forma, então nadei apenas para me classificar. Primeiro objetivo atingido. Eu nadaria na raia 2 no dia seguinte, tinha feito o 5º tempo das eliminatórias.

Chegou o grande dia. Ainda sabendo que eu não estava nadando da forma como eu queria, precisei pensar muito bem na estratégia de prova. Virei os primeiros 50 metros entre o quarto e o quinto lugar. Nos 100, já estava em terceiro e lembro que eu ainda estava me sentindo bem. 150, terceiro ainda. Eu tinha que nadar os 50 metros da minha vida se quisesse o tão sonhado ouro. Naquele dia eu quase matei minha mãe do coração, mas deu! Eu não podia acreditar, eu tinha conseguido. E, pela comemoração do Wlad, meu técnico, ele acreditou desde o começo.

Se alguém me falasse, naquelas duas semanas que antecederam esse brasileiro, que seria ali que eu conseguiria meu primeiro título nacional de categoria, eu jamais teria acreditado.

Hoje, é claro que eu ainda me preocupo quando as coisas não saem conforme o esperado, mas, depois do Campeonato Brasileiro Juvenil de Verão de 2008, eu sei que, por pior que a situação pareça, a gente sempre pode tentar se superar.

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