A desistência de Katie Ledecky dos 200m livre e da final dos 1500m no Mundial de Gwangju, na Coreia do Sul, chamou a atenção de todos. A nadadora, que já havia perdido os 400m livre para a australiana Ariarne Titmus, estava doente e desistiu das provas. Mas sua capacidade de se desafiar não deve tornar isso um problema para ela.

Muito se falou sobre o impacto dessa derrota surpreendente em resultados futuros de Ledecky, mas um dos grandes diferenciais da americana é a capacidade de se desafiar e de aprender com suas derrotas. (E, é claro, quando um atleta está doente, é praticamente impossível que ele tenha uma performance normal).

Obviamente, no momento da competição, é muito difícil vermos alguém como Katie Ledecky falhando, mas o diferencial da nadadora está na forma como encara seus treinamentos e os desafios que se impõe.

Trabalho duro e mente voltada para o crescimento

Em um vídeo de uma de suas primeiras competições, numa piscina de 25 jardas, uma Ledecky de seis anos de idade atravessa a piscina parando várias vezes para se apoiar na raia e respirar.

Depois da prova, seu pai pergunta como foi sua primeira prova da vida. Ela responde, sorrindo: “ótima! Foi difícil”!

Vídeo da primeira competição de Katie Ledecky, que aparece em um especial da USA Swimming com outros nadadores.

Anos mais tarde, seu técnico, Bruce Gemmell, relembra esse vídeo dizendo que essa é a atitude que Ledecky tem nos treinamentos e competições até hoje. Para ela, o trabalho duro em si é uma recompensa e os desafios são prazerosos.

“Sua força não vem de um atributo físico”, explica Gemmel. “Não é nem relacionada à sua técnica de nado. Vem do seu intenso desejo de fazer exatamente o que precisa ser feito para melhorar”.

Forçar o limite

Para Katie Ledecky, trabalhar duro não é o bastante. Ela testa seus limites e, para melhorar, está disposta a fracassar quantas vezes for necessário até que consiga. Tudo isso sem se desmotivar!

Embora isso possa parecer simplista, muitos atletas têm muita dificuldade em chegar ao limite. É mentalmente e fisicamente cansativo nos forçar consistentemente a deixar nossa zona de conforto.

“Tem dias em que ela falha catastroficamente”, conta seu treinador. “Ela erra mais no treino do que qualquer outro colega, porque ela pensa ‘esse é o ritmo que preciso fazer na prova, então preciso conseguir nadar assim no treino'”, explica Gemmel. “Então, ela faz seis tiros nesse ritmo e então ela quebra. Mas quer saber de uma coisa? Ela volta no outro dia e tenta outra vez. E, no terceiro dia, ela consegue. E é assim que ela treina desde o primeiro dia que encontrei com ela”, completa o técnico.

Katie Ledecky e seu técnico, Bruce Gemmell
Katie Ledecky e seu técnico, Bruce Gemmell. (Foto: Joe Scarnici/Getty Images North America)

Força mental aprimorada no treino

Para boa parte dos nadadores, a ideia de ter um psicológico forte está diretamente ligada às competições. Mas é preciso praticar essa parte também. E onde melhor do que o treino pra fazer isso? Você precisa estar disposto a enfrentar o fracasso no treino repetidas vezes até conseguir se superar.

A veia competitiva de Ledecky é visível em cada campeonato, mas o que a distancia das demais é trazer essa competição consigo mesma para o treinamento diário.

“Você olha pra Katie, assim como era com Michael Phelps, e você vê que a diferença está em suas mentes e em seus corações. Eles gostam de competir, de falhar e de se desafiar. E não só na competição, que é uma parte muito importante, mas no treino também”, explica Bruce Gemmel.

Como se desafiar e falhar como Katie Ledecky

Poucos de nós chegarão aos pés do sucesso de Ledecky. Ela poderia se aposentar hoje e sair como uma das maiores de todos os tempos.

Mas podemos nos inspirar em algumas das atitudes mentais que ela utiliza para alcançarmos nossos próprios objetivos:

Estabeleça séries desafiadoras

Não é suficiente ter grandes metas para a temporada, essa é a parte fácil. Tenha metas de treinamento, um ritmo de prova específico ou a frequência de braçadas, por exemplo, e pratique até você dominá-los. E, quando você fizer isso, estabeleça um novo e mais desafiador patamar para atingir.

Não fuja dos desafios

Seu treino deve exigir mais de você. Não seu melhor, mas um passo além disso. O treino é feito para errar. Claro, falar para não fugir dos desafios é muito mais fácil do que realmente fazer isso, mas a resiliência que você vai desenvolver tendo essa atitude vai ser como a de atletas de nível internacional.

Seja competitivo no treino

Alguns atletas parecem já ter nascido com uma competitividade de campeão. Mas, se você não é assim, não se preocupe. Essa habilidade pode ser desenvolvida com treino.

Seja competitivo consigo mesmo e com seus colegas de treino. O ambiente vai exigir dedicação de todos e ajudar o instinto de competição do qual você vai precisar na hora da prova.

Não tenha vergonha de falhar

Perder o intervalo da série não é bonito de se ver. Chegar a esse ponto dói, a técnica de nado vai para o espaço e parece que tem um piano nas nossas costas.

Quem vê um atleta triunfando no dia da Olimpíada ou do Mundial não vê, mas nadadores como Katie Ledecky também passam por momentos como esse em seus treinos. Não tenha medo de parecer bobo ou fraco. Tente. E, se não conseguir, tente de novo.

No fim das contas, a base do sucesso de Ledecky não é porque ela é um ET – apesar de seus tempos às vezes parecerem.

Seu técnico Bruce Gemmell adianta que não existe nenhum truque ou receita. “Apenas faça o trabalho duro”, aconselha ele.

Um dos grandes diferenciais de Katie Ledecky é a capacidade de se desafiar e de aprender com suas derrotas. Por que você não tenta também?

Texto traduzido e adaptado do site Swim Swam.