É comum falarmos aqui sobre o psicológico na competição e como usar sua cabeça para atingir seus objetivos. Mas hoje vamos falar de um aspecto um pouco diferente da parte mental: como lidar com uma mudança de quem era um atleta de alto rendimento e passa a nadar por lazer.

Como falamos no podcast sobre o psicológico na hora de competir, quando se trata da nossa parte mental, não existe uma receita a ser seguida. Por isso, vou contar um pouco sobre minha experiência. Essa transição do mundo competitivo para o esporte como lazer nem sempre é tão tranquila e linear. E, é claro, vou trazer algumas dicas de coisas que fiz para poder encontrar uma forma saudável, física e mentalmente, de manter a natação na minha vida.

Parando de nadar no competitivo

Quando deixei de nadar como federada, em junho de 2011, eu convivia com uma lesão bastante dolorida na coluna há mais de seis meses. A dor incessante juntou-se à idade de prestar vestibular e decidi parar. Não era algo que eu quisesse, mas as circunstâncias da época me fizeram chegar à conclusão de que seria a melhor decisão naquele momento.

Se não houvesse esses fatores externos a como eu me sentia em relação ao esporte de alto rendimento, eu provavelmente teria continuado mais um pouco. Isso é importante porque muitos atletas se aposentam tão saturados que não querem mais olhar para uma piscina. No entanto, esse não foi o meu caso.

Eu sempre amei, continuo apaixonada pela natação e não consigo imaginar minha vida sem esse esporte! Mas precisei aprender muitas coisas para poder lidar com essa parte tão grande da minha vida quando ela deixou de ser minha prioridade.

Natação como lazer

Não é exagero se eu disser que demorei anos para parar de me frustrar com a natação como lazer. Mesmo amando o esporte? Mesmo amando o esporte.

Até hoje, se eu resolver nadar só porque sim, eu sei que não vou. Eu sou o tipo de pessoa que precisa ter um objetivo que me obrigue a treinar, então nadava competições universitárias e Master.

Nos primeiros seis anos depois que parei de nadar em alto rendimento, toda vez que eu nadava alguma dessas competições, era inevitável que eu comparasse meus tempos com os da Victoria que fazia sete sessões de treino por semana, musculação, preparação física, suplementação e vivia praticamente em função do esporte.

Um pouco injusto, não é? Naquelas horas, eu não enxergava que meu momento de vida era outro, que eu fazia faculdade, estagiava, tinha muito mais tempo de lazer com meus amigos e família – e que treinar era só mais uma entre todas essas coisas. E aí, o sentimento de impotência e o chororô eram inevitáveis.

Estratégias

A minha forma de lidar com isso era me afastando um tempo das piscinas. Desde que pendurei o maiô de federada, já pratiquei corrida, basquete, futebol, pilates e musculação. Para mim, era uma forma de continuar praticando esporte, mas em modalidades em que eu não tinha nenhum histórico e não teria como me frustrar ao me comparar comigo mesma. No meu caso, essa estratégia funcionou naqueles momentos em que a minha própria pressão psicológica me sabotava para nadar por prazer. Isso significa que eu não consegui lidar com a aposentadoria e nunca mais nadei, mesmo amando a natação? Não!

Victoria jogando basquete
Para dar um tempo para a cabeça, um dos esportes praticados foi o basquete. (Foto: ECAtlética)

Nesses períodos em que me afastei piscina, senti saudade e voltei para a natação muitas vezes. E o fato de ter tentado coisas novas – e nas quais eu não era nada boa – me fizeram pegar mais leve comigo mesma.

É claro que o processo não foi rápido. Até hoje ainda aprendo sobre como lidar com minha cabeça, mas é importante entendermos que esse tipo de aprendizado leva tempo e que nem sempre é na primeira vez que vamos conseguir.

Algumas dicas

Com meus erros e acertos, entendi que algumas coisas deram certo para mim. Então, compartilho aqui algumas dicas que podem te ajudar a descobrir um pouco do seu próprio caminho:

  • Entenda o que funciona para você na hora de praticar esportes: no meu caso, eu sei que preciso ter um objetivo a cumprir. Então, me inscrevo em provas e competições para me manter ativa e treinando. Se, para você, o que contar for encontrar os amigos ou emagrecer, foque nisso!
  • Saiba que agora a natação é lazer: você não deve se obrigar a nada. Se estiver maçante continuar nadando, dê um tempo! Tente modalidades e exercícios novos para espairecer. Mas saiba identificar se você só não está com preguiça ou cansado para ir nadar naquele dia específico. Mude de ares se a natação estiver te cansando mentalmente na sua rotina.
  • Leve em conta seu momento de vida agora: pense em tudo o que você faz hoje em dia. Trabalho, família, relacionamentos, amigos, lazer… A vida adulta dá um baita de um trabalho, então não é justo nos compararmos com uma pessoa que não faça tudo isso na mesma intensidade que nós fazemos, mesmo que essa pessoa seja nosso eu do passado.
  • Movimente-se e divirta-se: pratique esportes porque você quer e porque te faz bem! Vá treinar com alegria e tenha prazer no que você faz. Só não vale ficar sempre no sofá assistindo a séries, hein!

E aí, tem mais alguma dica? Comente aqui ou mande mensagem pro Raia Oito no Facebook ou no Instagram!